domingo, 7 de outubro de 2012

O Carnaval de Veneza



      Veneza é uma cidade surpreendente. Você vai ver coisas lá que você nunca viu em outro lugar. Veneza tem um ar meio  feérico, algo meio misterioso. De tudo que se vê em Veneza, parte dessa magia, desse encanto, deve-se ao seu Carnaval, um dos mais bonitos do mundo com certeza. Hoje vou falar um pouco sobre isso.

      COMEÇANDO "DO COMEÇO": AS DIONISÍACAS

    Nenhuma festa que tem bebedeira e putaria iguala-se às festas dedicadas à Dioniso. O deus do vinho era exigente e suas festas foram estrondosas. Eram festas tão excêntricas e impressionantes que alguns dizem que na Grécia Antiga, não havia essencialmente diferença entre a mania (loucura) e a manikê (conhecimento divinatório). Na Grécia Antiga,  o ato de despirocar não era visto como algo ruim ou maléfico para o ser humano. O Logos grego não tinha contrário. Ou seja, do outro lado da Razão, do discurso ou conhecimento racional, não estava a Loucura. E Platão dizia que o delírio é uma coisa mais bela que o bom senso. Tomando essa expressão ao extremo Giorgio Colli chega a dizer que "A sabedoria nasceu do delírio"...eu digo isso porque nessa época eles despirocavam pra valer...

       Já na época de Heródoto, Dioniso era referido como "aquele que leva as pessoas a comportarem-se como loucos". Dioniso era ao mesmo tempo o deus do vinho, da fecundidade, da música, da alegria, da renovação...ou seja, era o deus do excesso e da exaltação. Numa versão mais primitiva conhecida como Dionisíacas rurais, um punhado de gente saía atrás de uma ânfora cheia de vinho e um cesto de figo...a procissão comportadinha no entanto acabava em danças grotescas, máscaras, e euforia ruidosa. 
      Mas os rituais a Dioniso eram muito frequentes nas cidades. Em Atenas, na região de Limnae , onde foi erguido um templo à Dioniso, havia uma festividade conhecida como Lenadas, uma espécie de dionisíaca urbana, que se tornará uma espécie de padrão para esse tipo de festividade. Depois de um banquete oferecido pela cidade-Estado, entoando um canto de ditirambos, começam as danças e ruídos, que logo vai descambar para uma putaria e bebedeira inimagináveis....
      O apogeu do culto a Dioniso ocorreu, vocês devem imaginar, com o apogeu político de Atenas no século V.a.C (também conhecido como "Século de Péricles"). Nesta época, Dioniso já era visto como uma espécie de libertador (eleuthério em grego). Dioniso, com sua luz inebriante, era aquele que libertava o homem de suas amarras sociais, aquele que invertia as hierarquias estabelecidas, aquele que tirava o peso das preocupações e os fazia esquecer, por um tempo, das misérias da condição humana. 

Ficheiro:William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - The Youth of Bacchus (1884).jpg

      Eu não digo que houve continuidade direta, transposição única e simples, colagem - mas qualquer tipo de festividade popular que exalte o excesso e promova a subversão temporária das hierarquias, onde por um instante parece que o mundo está de cabeça pra baixo, há ali uma fumaçinha ou um dedinho de Dioniso!!!! Exemplo disso é a interpretação católica daquilo que hoje chamamos de Carnaval, que nada mais é do que uma tentativa de domesticar os excessos das festividades dionisíacas criando uma "festa da carne" permitindo que o cristão libere a franga que existe dentro dele, para depois retomar a sua vidinha...obedientemente.

A FESTA DA CARNE - O CARNAVAL MEDIEVAL

      O Carnaval na sua expressão latina significa laxtio carnis - o abandono da carne. No início era atribuído ao comportamento casto que antecedia a Quaresma. Mas rapidamente passou-se a denominar carnaval o momento da carne...a liberação dos instintos e das pulsões mais animalescas e profundas do homem. Era um momento de catarse social, onde a ordem e a hierarquia eram subvertidas.


     As festas populares nesta época tem muito mais haver com as Dionisíacas do que com qualquer tipo de festividade judaica. Aquelas festas bem malucas que deixariam qualquer um que viesse hoje em dia de cabelos em pé....Ou seja, vamos falar sério: esse era o momento de putaria e bebedeira....o carnaval nada mais é do que uma interpretação cristã dos antigos bacanais (em homenagem a Baco, literalmente)  e das dionisíacas urbanas na Grécia Antiga.

     O Carnaval na Europa existe em diferentes configurações. Um costume antigo que existia na França  e principalmente em Portugal de jogar mísseis de ovos e laranjas chamado de "entrudo", foi trazido para o Brasil pelos portugueses; em Lyon na França, em Florença e Nuremberg você vai ver desfiles de carros alegóricos, em Veneza já são conhecidíssimas o misterioso carnaval de máscaras(e até no Rio de Janeiro no início do século XIX você ia ver pessoas fantasiadas de arlequins e pierrots, imitando o carnaval mais "civilizado" isto é, europeu).

    E até hoje por exemplo, na França, o dia mais insano que antecede a Páscoa é o Mardi Gras - a Terça-Feira Gorda, que tem o equivalente em muitos lugares na Europa (aqui no Brasil seria algo como a Quarta-Feira de Cinzas). É o dia em que se despede da bebedeira, da glutonaria e dos excessos para iniciar-se um momento de preparação para a Páscoa.


     E quando vemos um quadro como o de Peter Brueghel, pensamos que afinal, quando se fala em goró e putaria, a coisa meio que é universal:


   

     O CARNAVAL DE VENEZA

       Em Veneza, porém, o Carnaval é diferente. Ele tem um sabor e um mistério todo específico. É emblemático. Hoje eu vou falar um pouquinho sobre isso, pois mesmo não estando lá na época certa do Carnaval (que começa em dezembro), a presença do Carnaval em Veneza é muito forte, seja nas lojas de máscaras espalhadas pela cidade, seja nos pequenos ateliês onde você consegue ver os artesãos fabricando as máscaras, seja nas lojas de fantasias que oferecem trajes completos, ou entrando numa lojinha escondida que tem marionetes com as fantasias e máscaras do Carnaval veneziano...

















       Em Veneza, o Carnaval remonta ao século XI. No auge da Sereníssima República, Veneza era uma cidade cheia de comerciantes e uma das mais poderosas da Europa. Durante o governo dos dogdes, o carnaval já era celebrado a partir de 26 de Dezembro até a primeira quarta-feira quarenta dias antes da Páscoa. A Terça-Feira Gorda era o dia onde tudo chegava ao seu ponto mais alto.
Nos anos seguintes, o Carnaval foi crescendo tanto que no século XIII o senado de Veneza decreta oficialmente o Carnaval como uma festa popular em Veneza. Nesta época, a tal festa já recebia o nome de Carnaval, a festa da carne.



     O Carnaval de Veneza passou a misturar todo tipo de pessoas, de diferentes classes sociais: o rico e pobre, o nobre e o plebeu, todos misturavam-se numa imensa festa.
Durante o Carnaval, ninguém era de ninguém. O uso das máscaras, no entanto, preservava o anonimato. Os venezianos podiam entregar-se a devassidão, bebedeira e promiscuidade. Os casais recém-formados iam para os becos e cantos escuros para transar. Não se sabia se embaixo da máscara havia um comerciante, um senador, uma nobre ou uma camponesa. 







A única regra era o uso das máscaras e o anonimato. A máscara protegia os rostos e eliminava as diferenças entre classes e sexos.





   A festa era completada com músicos, dançarinos, acrobatas, operadores de marionetes, adestradores de animais....uma balburdia.


     Veneza já tinha desde o século XIV uma legislação que proibia o uso das máscaras à noite, principalmente em locais religiosos e administrativos, sob o risco de prisão. Porém, a máscara era liberada nos dias de Carnaval. E não só isso: nesses dias, homens poderiam vestir-se de mulher; mulheres vestirem-se de homens, etc. Além das tradicionais roupas do pantalone, arlequinho e da colombina , haviam ainda fantasias de bobo da corte, diabo, animais, máscaras grotescas de todas as formas, etc.

  Durante o Carnaval, mesmo naquela época, você poderia ver pessoas vestidas com as fantasias e máscaras, sentadas nos cafés..





    Além da concentração na Piazza di San Marco, era comum verem hordas de fantasiados também pelos Campi de Veneza, principalmente San Polo, que concentrava o comércio mais popular em Veneza.

    A festa também era marcada pela glutonaria. Servia-se muito vinho, carnes e panquecas. A Terça-Feira Gorda marcava a aproximação da Quaresma. Era servida o tradicional frittelle (um bolinho doce frito) A ideia era poder cometer os últimos excessos antes da chegada da Quaresma e a preparação para a Páscoa.


A COMMEDIA DELL´ARTE E AS MÁSCARAS DO CARNAVAL VENEZIANO



     As máscaras do Carnaval veneziano são inspiradas na Commedia dell´Arte. Este tipo de teatro é baseado na improvisação e constitui uma oposição ao Teatro Erudito que se fazia por volta do século XVI na Itália. Por isso, é também chamado de Commedia all´improviso ou Commedia ao Soggetto. Esse gênero mais popularesco ganhou o gosto do público, e era apresentado em grandes praças e ruas. Eram itinerantes, montavam seu palco ali mesmo, em suas carroças após chegar numa cidadezinha e obter a permissão das autoridades. As companhias dell´arte eram pequenas, funcionavam no esquema de um grupo familiar, onde os artistas na verdade faziam um pouco de tudo, tanto dentro como fora do espetáculo. 


     O espetáculo da Commédia dell´Arte fundamenta-se basicamente no poder de improvisação de seus atores. Há apenas uma linha narrativa inicial, chamada de "canovacci" (trama larga). Mas os atores do grupo tem toda liberdade de sair do texto e criar seus próprios diálogos. 

    Os personagens da Commédia dell´Arte eram fixos, muitos deles viviam um personagem pela vida inteira, praticamente incorporavam o personagem. Os figurinos eram sempre coloridos, exagerados, e expressavam a alegria e a espontaneidade deste tipo de espetáculo, o  tom escrachado contrastava com o teatro mais erudito, que se levava muito à sério.



     No início as tramas das estórias apresentadas pelas companhias dell´arte eram baseados em fatos cotidianos. Referiam-se principalmente às relações entre patrões e servos. Com a entrada dos personagens femininos, começou-se a fazer muito sucesso as relações de amor e intriga: um casal central (geralmente o arlequino e a colombina), queria casar a todo custo, numa trama recheada de intrigas e falácias que tentavam separar o casal de enamorados...

   Assim, no século XVI, quando o costume das máscaras começaram a se difundir no Carnaval veneziano, com o sucesso imenso das trupes itinerantes pela Itália,  todos sabiam muito bem quais eram as referências. Cada traje, cada máscara, cada atitude, fazia referência à um dos personagens da Commedia della Arte. 

     Essa leitura, que era feita instantaneamente pelos participantes do Carnaval veneziano foi se perdendo com o tempo. Isso foi acontecendo lentamente, paralelamente ao declínio desse gênero da Commédia dell´Arte. Fomos perdendo essa referência mais imediata.  Hoje em dia não sei se os turistas que vão para lá na época do Carnaval, triplicando o número de pessoas da cidade, sabem exatamente o que estão vendo.
De todo modo, vou fazer um resumo...

OS PERSONAGENS DA COMMÉDIA DELL´ ARTE

     O Pantalone
   É um dos personagens mais conhecidos da Commedia dell´Arte e também uma das máscaras mais usadas durante o Carnaval. Representa um senhor com muito dinheiro (geralmente era um comerciante), de idade já avançada, e que tem  um grande apetite sexual. Apaixonava-se facilmente, porém era avarento. O que o colocava em situações engraçadíssimas.


    O Brighella
   Era o servo na Commédia dell´Arte. Ligeiro, astuto...ele poderia tanto ser leal ao seu patrão quanto agir pelas suas costas. Este personagem geralmente era aquele que começava a tramóia, fazendo a peça se movimentar numa sucessão de intrigas e trapaças, até o desfecho final. Era o responsável pela música no espetáculo. Seu objeto era o violão.



     O Arlequino
    O arlequinho é o personagem mais carismático da Commédia dell´Arte com o qual todos nos identificamos. Enquanto o brighela é astuto e inteligente, o arlequinho é meio tapado e ingênuo. Porém ele nutre um amor sincero pela colombina. Sua principal habilidade são as acrobacias. Está sempre envolvido em confusões. A sua máscara é preta, e suas roupas são coloridas e exageradas.


    A Colombina
    A colombina é a criada astuta. Esperta e inteligente, entende rapidamente o que está se passando e consegue tirar proveito de várias situações.  Ela forma o par com o arlequino. (Quando a trama larga favorece a história do arlequin e a colombina, eles são chamado de "inamoratti"


     O Pulcinela
     Como o arlequino, o pulcinela é o servo tosco, mas que em determinados momentos pode ser levado e cometer atos de grande bravura. Os seus trejeitos são inspirados no povo napolitano, que lhe dá ares de vivacidade e energia.
Depois, quando eu conheci Nápoles, eu vi vários bonequinhos do pulcinela espalhados pelas lojinhas de presepii da Via San Gregório Armeno, mas na hora eu demorei até ligar as pontas: "pulcinela = matuto napolitano"....genial!(Veja o meu post sobre O sorriso do Pulcinella)


    Il Dottore
    O doutor é um (falso) erudito. Ele pode estar encarnado na figura de um  médico ou advogado, funções de grande destaque social. Presunçoso e soberbo, ele gosta de fazer citações em latim (decoradas)...e exibir erudição. As vezes ele é solicitado a desempenhar um papel de grande responsabilidade, mas como constitui um engodo, acaba sempre saindo pela tangente e demonstrando que aquele ar soberbo na verdade era apenas uma farsa. Ele usa a toga preta e o barrete e a máscara dos chamados dottori della peste ou plague doctors, a mascara com formato de um bico de corvo, que é uma das mais tradicionais do Carnaval veneziano.

    O Capitano
    Sua inspiração são os soldados espanhóis que vieram para a Itália na época do Governo das Duas Sicílias. Ele é uma sátira contra a ocupação dos espanhóis no sul da Itália.


O VÔO DA COLOMBINA

    Um dos momentos mais tradicionais no Carnaval de Veneza é o chamado Voô da Colombina. No começo era um escravo, que representava a colombina, que era amarrado por uma corda, e era alçado do alto do Campanário, na Piazza di San Marco. Depois o escravo foi substituído por uma pomba de madeira e finalmente por uma acrobata, que jogava flores do alto da torre  sobre os animados pedestres...




     Não lembra um pouco aquela cena clássica do Asas do Desejo?

    



    O Carnaval de Veneza está presente em todo canto da cidade, em qualquer época do ano...Não tem como, ele já te toca de um modo certeiro, quando você pára em frente de uma lojinha de máscaras...é quase que uma mágica. Eu conheci Veneza, e senti um pouquinho do gostinho do Carnaval, através de suas pistas, de seus espectros...(de uma maneira muito oblíqua, é verdade, mas ainda assim, foi uma experiência marcante para mim) ...um dia sonho em voltar a Veneza quando o carnaval estiver acontecendo. Aí escrevo outro post. 


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